Promoção de final de ano






Neste final de ano, nada de presentes meigos de Natal...

Que tal presentear o seu pai, o seu irmão, a sua namorada ou sua avó com algumas páginas de tensão?

O SOBRADO DE RUA VELHA, livro de uma nova safra de autores nacionais, em um desconto especial neste final de ano.

Acesse o blog ou entre em contato com autor para maiores detalhes.

http://osobradodaruavelha.blogspot.com.br/p/blog-page_16.html

Resenha de "O Sobrado da Rua Velha" pelo escritor Cláudio Quirino




Recorrer a temas paranormais em romances quase sempre é algo complicado, muito complicado, por natureza. Expresso dessa maneira, porque parece meio incomum ter ideias originais, mantê-las com firmeza e construir um bom suspense, que prende por tudo que se manifesta.

Em seu romance de estreia – O Sobrado da Rua Velha –, o autor Jeremias Soares demonstra uma primazia calculada para esboçar uma antiga temática: a exploração de ambientes sinistros e que exercem poder sobre a mente fragilizada das pessoas. Não é um tema recente, claro, mas que surpreende pela forma com que se inicia e entrega o seu fiel propósito. Com o primeiro contato com a obra, garanti a minha preocupação em estudá-la como realmente se deve, atentando para as características que, entrementes, constituem o método. E eis que tudo me causou uma ótima impressão, a começar pelo sobrado.

Este, absorvido por um mistério incansável, cria um clima tenebroso aos olhos dos leitores, que, com o passar dos capítulos, vai sendo apresentado com um pouco mais de elementos diferenciados. O sobrado parece espetacular da maneira como foi concebido pelo autor e, mais ainda, contrasta sobrenaturalmente com a sombria Rua Velha. 

Então, um fato duvidoso acontece. Em meio a uma teia indecifrável de segredos e marcas do passado, os personagens são apresentados. Cada um, em especial, converte os seus desejos mais íntimos em certas prioridades, que consegue nos convencer; são figuras aparentemente normais, que seguem as suas vidas e buscam priorizar sonhos, despreocupadas com os perigos reais que os cercam. O que distingue essas camadas são gélidas recordações e assombrações impiedosas. Assombrações que se instaura dentro de cada um deles, manifestando comportamentos surreais e mortais.

E seria exatamente desse ponto que tudo começa. O envolvimento satisfatório e cru dos personagens se desfigura, aos poucos, para dar lugar a uma tensão resoluta que se torna marcante pela sua forte originalidade. Jeremias conseguiu, de fato, criar cenas e situações intensamente inusitadas, que arrepiam o seu leitor. A relação familiar que, em cada capítulo novo, vai se modificando é um dos pontos positivos do romance e, junto com a linguagem simples – entremeada com o regionalismo gaúcho – satisfaz os olhos dos amantes do gênero. Existe preocupação, esmero nas palavras e boas doses de terror, que seguem uma linha lógica de raciocínio.

A ruptura que desencadeia no surpreendente final me chamou a atenção. Foi por uma espécie de cadeia de acontecimentos que Jeremias Soares ousou ainda mais. E novamente percebi a sua segurança, o seu conhecimento e o seu talento, que é inegável.

O Sobrado da Rua Velha é incrivelmente bem desenvolvido e estruturado. Senti falta de um pouco mais de descrição, em algumas situações, mas isso não minimizou a importância do romance. Está repleto de simbolismo oculto, mensagens aterrorizantes e de carga negativa. Afinal, seria essa a intenção.
Muitos sustos e entidades rondam as entrelinhas.
Ótimo, de verdade.

Cláudio Quirino é um escritor participante do gênero policial/paranormal. Com uma experiência comprovada como escritor de contos, participou de algumas coletâneas e de sites com conteúdos voltados para o seu gênero, Atualmente, está finalizando o primeiro romance-solo, que deverá ser lançado no primeiro semestre de 2013. E-mail para contato claudioquirino86@bol.com.br.

Lojas físicas de Canoas (RS) que comercializam "O Sobrado da Rua Velha"

Livraria Canoas - Av. Victor Barreto, 2934 
Revistaria e Tabacaria Eureka - Canoas Shopping - Av. Guilherme Schell, 6750
Mania de ler -  Hipermercado Bourbon Canoas. Av. Getúlio vargas, 5765

Mania de ler - Canoas Shopping - Av. Guilherme Schell, 6750

Em breve a lista será atualizada.

Entrevista de Jeremias Soares para a Editora Multifoco - Unidade Sul

Entrevista Jeremias Soares de Mello

1. Quem é Jeremias Soares?

Falar de si mesmo é complicado. Sou um sujeito pacífico. As ideias trágicas ficam todas nos livros, rsrsr... Sou servidor público da Prefeitura de Porto Alegre. Não cursei universidade, porém, tenho formação em dois cursos técnicos. Estou bem no serviço público. Minha prioridade é paralelamente consolidar a carreira de escritor.

2. Fale um pouco sobre seu livro, O Sobrado da Rua Velha?

O Sobrado da Rua Velha recupera o gênero de casas mal assombradas. Fala sobre uma família problemática que tenta resolver os seus problemas se mudando para uma casa ainda mais problemática. Temos a partir daí pessoas suscetíveis que são colocadas em um lugar repleto de cargas negativas. Elaborei o livro usando diversas influências, buscando prioritariamente uma narrativa onde predominasse a seriedade. Não caricaturei os personagens e o enredo. Desejo passar a ideia de perigos assustadores e verossímeis. Embora tenha escrito uma ficção, almejo escapar ao máximo da fantasia. Quero que as pessoas leiam o livro e perguntem se a Rua Velha e os personagens de fato existem (e isto já aconteceu). 

3. Como você vê a recepção de seu livro pelos leitores?

Ótima! As vendas são boas e as pessoas estão devorando o livro. De dez leitores consultados, oito o terminaram em dois dias de leitura. Isso é bom! Vejo que O Sobrado da Rua Velha está funcionando na hora de prender a atenção do leitor. As pessoas querem saber o que vai acontecer e como tudo vai terminar. Ainda não sei afirmar se ele atinge o seu propósito principal, que é impressionar e assustar. Já tenho uma noção, mas ainda preciso colher mais opiniões. 

4. A literatura é sua amiga ou sua inimiga?

Amiga do peito! Ela me acompanha e me completa quando estou sozinho.

5. Como você e a literatura se conheceram? Como, onde e por que tudo começou?

Quando criança, desenhava gibis e lia centenas de revistas. Lá pelos dezessete anos, descobri O Cemitério, de Stephen King. Foi paixão à primeira vista. Comecei a devorar todos os livros dele, e jamais vou esquecer a sensação que sentia ao fazer isso. Como curtia escrever redações na época e tinha a cabeça sempre pensando em alguma história, deduzi que poderia me aventurar nesta arte. Escrevo desde os dezoito, porém, a primeira coisa aceitável que criei foi O Sobrado da Rua Velha.

6. Como você vê o mercado editorial brasileiro para os novos autores?

Vejo como um mercado de difícil acesso. Felizmente a Editora Multifoco está democratizando o sistema, proporcionando oportunidades para quem deseja começar. Mas todos que desejam obter êxito precisam enfrentar um funil bem estreito e esperar a sua vez. 

7. Em sua opinião, é possível viver de literatura no Brasil?

Acho que é possível, mas além de ser talentosa a pessoa precisa ter sorte e principalmente paciência. Você pode ser aquele cara que tem a sorte de estar na hora certa, no local certo e falar com a pessoa certa. Daí de repente ganha patrocínio, apoio de pessoas graúdas e grande visibilidade. Mas acho que esta não é a realidade da maioria. A profissão de escritor vai além do “escrever o livro e esperar as vendas”. O ofício tem de ser vivido ao máximo. O autor precisa escrever, revisar, fazer autocríticas, julgar a receptividade do que escreve e saber divulgar o seu trabalho. E, como em toda a profissão, aquele que se dedicar com afinco e souber esperar vai conseguir viver da literatura. É importante frisar que não descobri isso sozinho. Estou aprendendo ótimas lições com pessoas magníficas que tive a chance de conhecer depois que lancei o livro. 

8. De que maneira a internet atua na sua vida de escritor?

Atua em vários aspectos. Através dela fiz pesquisas, descobri a Multifoco e testei a receptividade de assuntos abordados no livro. Embora tenha impresso diversos convites, foram as redes sociais que levaram as pessoas aos lançamentos de O Sobrado da Rua Velha. Eu consegui vender livros por causa de amigos que compartilharam informações do meu trabalho na internet. Um compartilhamento no Facebook, que não dura nem 5 segundos, pode ser de uma ajuda fantástica! Mas eu ainda peco em alguns aspectos. Eu não uso Twitter e não tenho a intenção de usar. Será que ele pode ajudar?

9. Já há quem diga que a literatura, assim como a música, está se desligando cada vez mais de formatos pré-determinados, como o CD, o Vinil e o próprio MP3, para se tornar mais ‘livre’. Em contrapartida, isso impediria a remuneração adequada ao autor, que já é baixa e passaria a ser inexistente. Qual sua opinião sobre isso? 

Os músicos sempre terão os shows para obter as suas remunerações. Por outro lado, os livros em papel vão resistir mais do que os CD’s. Eles são práticos e não dependem de baterias e da Internet. Um dispositivo moderno que lê e-books pode até possuir ferramentas eficazes de localização, entretanto, folhear um livro é mais charmoso. A questão cultural o ajudará a sobreviver por mais um tempo. No futuro, o ideal seria criar uma forma de distribuição digital de livros protegida contra pirataria. 

10. Existem especulações que, uma das maneiras de agregar valor e aumentar a rentabilidade dos livros, seria a inserção de publicidade nas edições, ou de histórias pagas por anunciantes, onde o personagem, por exemplo, utilizaria um produto de determinada marca, o citando no decorrer da história. O que você pensa sobre isso? Acredita que a publicidade pode se tornar amiga da literatura?

Acredito que sim, desde que os merchans não deturpem a narrativa. O que não vale é apologia a políticos e a atitudes ilícitas. O problema é que as empresas preferem apoiar marcas consolidadas. Bem que elas poderiam patrocinar também projetos novos. Seria uma extraordinária maneira de difundir ainda mais autores iniciantes.

11. Como é sua rotina para escrever? Isto é, existe um ritual, alguma cerimônia?

Como trabalho em dois turnos, não consigo escrever mais do que 4 horas por dia. Não existem cerimônias e rituais, porque não sou supersticioso. A minha “jornada de trabalho” varia conforme o meu estado de espírito.

12. Se fosse listar os grandes autores da tua vida, quem seriam eles e por quê?

70% dos livros que eu li são de Stephen King. Eles me fizeram criar coragem para escrever e também me influenciaram. Logo, ele é o grande autor da minha vida. Mas também cito Dan Brown, cujo estilo de escrita é fenomenal. Poderia citar diversos nomes, porém, os dois citados são icônicos para mim. 

13. Como, onde e por que comprar O Sobrado da Rua Velha?

Quem gosta de terror deve adquirir O Sobrado da Rua Velha porque este é um livro que oferece uma história impressionante e trágica. Tentei imaginar o que poderia acontecer em um cenário imprevisível, deixei os personagens e o sobrado criarem vida própria. Em resumo, trago pessoas normais, que poderiam ser eu ou você, colocadas em um contexto estranho e assustador. Não há preocupação com final feliz. Esta é a linha do meu trabalho. Respeito quem cria fantasias e aventuras envolvendo figuras assustadoras, entretanto, aprendi a gostar de histórias que causam inquietação na hora de dormir. Quem compartilha do meu ponto de vista, pode adquirir O Sobrado da Rua Velha, afinal, tentei passar tudo isto nas suas 252 páginas. Nos meus blogs (http://osobradodaruavelha.blogspot.com.br/) e (http://jeremiassoares.blogspot.com.br/), ofereço o livro por um valor diferenciado e pagamento via pagseguro. Já pelo site da Multifoco e das livrarias parceiras ele pode ser adquirido pelo preço de capa. Em breve, acredito que vou conseguir fazer a distribuição em algumas lojas físicas.

14. Para encerrar: quais teus planos daqui pra frente? Já tem outro livro na manga, projetos, publicações? 

Vou participar de duas antologias da Editora Multifoco: Contos Medonhos, com o conto A noite feliz de Alcebíades; e Colorados – Nada vai nos separar!, com a crônica Os Fantasmas do Passado nos Minutos Finais de Yokohama.
Já tenho um livro 95% pronto, todavia, ainda estou analisando a viabilidade da sua publicação em médio prazo. Enquanto isso aproveito para lapidar ideias para uma nova história.

Rapidinhas:

Livro favorito: O Cemitério
Escritor favorito: Stephen King
Ídolo: Raul Seixas. 
Música: Tente outra vez
Vida: Algo a ser preservado de todas as maneiras
Morte: Muito medo
Amor: Sentimento essencial
Paixão: Sentimento fantástico
Literatura: Um oceano de possibilidades e emoções
Sonho: Consolidar a carreira de escritor
Inesquecível: O lançamento de O Sobrado da Rua Velha foi o último momento inesquecível. Prefiro citar este.

Entrevista realizada pela Editora Multifoco – Unidade Sul

O que as pessoas sabem a respeito de Canoas... e o que elas não sabem...




Canoas, que tem como seu principal símbolo a Praça do Avião, pertence à Região Metropolitana de Porto Alegre. Tem uma área de 131,097 km² e é a quarta cidade mais populosa do estado. Atinge uma altitude de 8 metros ao nível do mar, e no seu território correm as águas dos rios Gravataí e Sinos. Conta com boas escolas, excelentes universidades e grandes redes de hipermercados.

Se você quiser desfrutar de alguns momentos de lazer, pode ir ao shopping, que possui várias salas de cinema. Mas se gosta de caminhar ao ar livre, pode ir aos parques Getúlio Vargas (Capão do Corvo) ou Eduardo Gomes (Parcão). Os amigos também costumam se encontrar no Taberna do Gato à noite, onde é possível comer a melhor batata frita da cidade.

Falando de gastronomia, é possível comer bem em diversos bons lugares: Qoppa Restaurante, Jardim do Lago, Don Carlo, Piatto Bello, Italianíssimo, Passoquinha e Tortaria Brasil.

Guilherme Schell, Getúlio Vargas, Rio Grande do Sul, Florianópolis, Boqueirão, Santos Ferreira e Venâncio Aires são ruas e avenidas que cortam a cidade.

As pessoas que moram em Canoas sabem de tudo isso e mais um pouco. Habitantes das cidades vizinhas, também.

O que quase ninguém sabe é que existe na cidade uma estradinha de chão chamada Rua Velha, localizada não muito distante da divisa com Nova Santa Rita. Logradouro que um dia abrigou duas pequenas fábricas, se resume a sediar um boteco pouquíssimo frequentado e um velho casarão desabitado.

No interior desta construção antiga existe um elemento invisível capaz de promover o medo e a angústia. Uma força antiga e implacável que anseia por novas vítimas.

Assim como a existência da Rua Velha, a mudança de uma família influente para este endereço também passa despercebida pela maioria das pessoas. O antigo casarão foi reformado e agora é um belo sobrado repleto de luxos e modernidades.

Entretanto, o elemento invisível ainda está lá.

E está cada vez mais ansiado.

Conheça um pouco mais desta história remota da cidade de Canoas.

O Sobrado da Velha, livro de estreia de Jeremias Soares.

Lançamento: Qoppa Restaurante.
8 de outubro: 18h às 21h
9 de outubro: 12h às 14h

Prólogo e primeiro capítulo de "O Sobrado da Rua Velha"



Prólogo

A morte é um mistério e as pessoas, por causa do senso de sobrevivência, costumam evitá-la. Todavia, há algumas exceções.
O motorista do Passat 79 sabia que precisava morrer. A sua esposa, que estava sentada no banco do carona, deveria sofrer o mesmo destino. Após examinar inúmeras maneiras de acelerar este processo, ele se viu capturado pela indecisão. Tirar a própria vida, além de exterminar a da pessoa amada, não era uma tarefa fácil para um camarada reconhecidamente delicado.
A morte inesperada do filho mais velho do casal desencadeou toda aquela loucura, entretanto, o homem acreditava que o problema realmente começou no dia em que eles se mudaram para aquele maldito sobrado. Foi o lugar que mudou em caráter definitivo a sorte da família. Mas identificar culpados e procurar por utópicas soluções não adiantava mais. A única saída era a morte.
Orlando dirigia o seu carro na BR-386, mais conhecida como a estrada Tabaí-Canoas, que estava sossegada naquele momento. Mesmo indeciso, ele sabia que vivia os últimos instantes de vida. Ao contrário de Cinara, conseguia raciocinar conscientemente em alguns momentos, mas sua esposa já estava totalmente perdida e dominada pela loucura. Cabia a ele a tarefa de tomar as decisões. A tarde chegava ao fim. O sol vinha direto nos olhos de Orlando, ofuscando-o. O homem percebeu um caminhão se aproximando na pista contrária. Segurou a mão esquerda de Cinara e a alisou.

–Eu te amo – disse ele.

O sol foi encoberto. O Passat estava na sombra do caminhão, que se localizava a menos de vinte metros de distância. Com um rápido, porém, tranquilo movimento de braço, Orlando girou a direção para a esquerda. E a morte deles acabou sendo rápida e indolor.

Notícia publicada no jornal Diário Rio-Grandense do dia 5 de julho de 1992:

CARRO DESGOVERNADO MATA CASAL NA BR-386
Um acidente estranho ocorreu no início da noite de ontem na BR-386, chocando e intrigando os moradores de Nova Santa Rita. Um Passat com placa de Canoas invadiu a pista contrária e se chocou contra um caminhão que vinha de Santa Cruz do Sul. Morreram na colisão o comerciante Orlando Soares Pontes, de trinta e nove anos, e sua esposa, Cinara Selbach Pontes, dona de casa de trinta e quatro. Segundo testemunhas, o Passat vinha em alta velocidade e entrou na contramão repentinamente. Alberto Martini, que dirige caminhões há quinze anos, conseguiu escapar ileso e afirmou não entender o motivo da colisão.
–A pista estava vazia no momento e de repente eu vi aquele carro branco avançando na minha pista. Vinha em uma velocidade muito alta. Eu tentei desviar, mas o Passat entrou bem no meio do caminhão. Por sorte não levei nem arranhão.
Orlando e Cinara recentemente perderam um filho. José Maria Selbach Pontes, de quatorze anos, morreu há menos de um mês. Nenhum dos familiares quis comentar a respeito, mas não pode ser descartada a hipótese do casal ter cometido suicídio. Eles acabam deixando Samuel Selbach Pontes, de cinco meses, órfão. Orlando levou o filho a um local seguro pouco antes do acidente. A criança passa bem, sob os cuidados da avó materna. O enterro de Orlando e Cinara acontecerá hoje no Cemitério São Vicente, em Canoas.
Em off ao repórter do Diário Rio-Grandense, o Senhor Alberto Martini enriqueceu um pouco mais o seu relato:
–A princípio eu pensei que o motorista estivesse dormindo, mas na verdade ele estava com os olhos bem abertos na hora do choque. E isso pode soar incrível, mas consegui identificar uma expressão decidida no rosto dele. Parecia que ele queria morrer. Acho que nunca vou esquecer esta expressão.
Isso foi gravado e reproduzido diante de dezenas de pessoas na redação da publicação. Entretanto, o editor foi prudente e resolveu não levar isso a público.

CAPÍTULO 1

1

O sobrado se localizava no final da Rua Velha, uma estrada de chão toda esburacada que ficava perto da divisa entre as cidades de Canoas e Nova Santa Rita e que parecia ter sido abandonada no tempo. Além da grande casa, a Rua Velha abrigava dois prédios abandonados e alguns casebres. No mais, era acompanhada por uma vasta vegetação campestre. Para chegar ao endereço, era necessário percorrer a BR-386 até encontrar o último posto de gasolina de Canoas. Depois então começava a tal estrada.
Joel Selbach ia até lá no seu Pajero. Estava acompanhado por um construtor civil e seus dois auxiliares principais. Pretendia iniciar o processo da reforma do casarão que pertenceu à sua irmã Cinara no passado. Tinha pressa em agilizar tudo, pois mudar o endereço da família para um local relativamente deserto que ficasse perto da capital era tudo que ele precisava. Apesar de fazer limites com Porto Alegre e ser uma cidade com mais de trezentos mil habitantes, Canoas também contava com espaços territoriais praticamente isolados e escondidos. Para Joel, parecia ideal. Ele, aos quarenta e três anos, era o âncora de um telejornal exibido ao meio dia, além de colunista de uma revista de circulação nacional. Dinheiro felizmente não lhe faltava naquela altura da vida.
Ao sair da BR-386 e entrar na Rua Velha, Joel passou a segurar o volante do carro com as duas mãos. O veículo sacolejava e os cascalhos batiam na parte de baixo da lataria. Já passava das onze da manhã do calorento 15 de abril de 2004. Joel arregaçara as mangas da camisa e tirara o paletó. Sua testa estava oleosa e os olhos ardiam um bocado. Ele parecia ansioso e impaciente, o que ultimamente tornara-se comum. Eram sintomas da doença que os homens das grandes cidades sofrem: stress. O trabalho lhe exigia um desprendimento exaustivo. E ainda tinha as constantes ligações, os problemas com a esposa e os diversos lugares que ele tinha que percorrer durante o dia. Realmente, Joel estava à beira de um colapso. Poderia explodir a qualquer momento.
Após rodar pelos quase quatro quilômetros da Rua Velha, o Pajero parou na frente do sobrado, deixando para trás uma nuvem de poeira. Joel saiu do carro e abriu o cadeado que trancava o portão de madeira. Deu uma olhada para a grande casa e sorriu. Ele estivera ali três vezes nas últimas duas semanas, todavia, era sempre um prazer imenso contemplar o a construção. Entrou novamente no veículo, manobrou-o para dentro do pátio e parou debaixo de uma árvore. Ainda, por trás do volante, contemplou novamente o lugar. Suspirou. Saltou do Pajero e abriu o porta-malas para tirar os instrumentos do construtor.
A casa era de dois andares. O primeiro feito de alvenaria e o segundo de madeira. Fora pintada toda de azul, todavia, já estava desbotada. O aspecto da abandono havia impregnado o local. Ao redor da construção, aquilo que um dia havia sido um gramado se tornara um matagal espesso.
–Este sobrado tem uma boa quilometragem – disse Joel – Foi construído antes da minha irmã se mudar para cá. Já foi uma casa moderna e aconchegante, entretanto, agora não passa de um local com aspecto de mal-assombrado.
–Não pensa em construir outra casa no lugar dessa? - perguntou o construtor.
–Não. Muita coisa no primeiro andar pode ser reaproveitada. Entre destruir e restaurar, fico com a segunda opção.
Pisoteando o matagal com receio de encontrar algum animal peçonhento, Joel chegou até a entrada principal do casarão. Pegou no bolso o molho de chaves e selecionou aquela que servia para a porta da frente. A tranca cedeu sem maiores dificuldades, revelando um lugar que não recebia uma presença humana há vários anos. A claridade da rua manchou o chão repleto de poeira e as paredes tomadas pelo mofo, além das teias de aranha que cortavam o caminho. Uma barata passeava pelo piso de madeira e se escondeu entre as tábuas ao se deparar com os visitantes. Joel sentiu um soturno arrepio ao dar o primeiro passo no interior da casa e ver que o chão deu uma leve tremida. Parou e olhou para trás.
–Pelo jeito, o assoalho é a primeira coisa que precisa ser substituída – disse.
Luiz Carlos, o construtor, assentiu.
–O senhor disse que existe um porão na casa – lembrou.
–Exato. Eu quero que ele seja mantido, assim como as coisas que lá estão.
À esquerda da entrada havia um quarto com uma cama de ferro sem colchão. Mais à frente se localizava o corredor que dava para outros ambientes, além da escada. Joel caminhou por todo o primeiro nível da casa, abrindo as janelas, se deparando com insetos e ratos, confirmando aquilo que já calculara: as paredes poderiam ser mantidas, pois apresentavam um razoável estado de conservação.
–Seu Luiz, as paredes devem ser mantidas – avisou Joel. – Revise-as e troque o reboco se for necessário. Quero extensões do telefone na sala e na cozinha.
O segundo andar do sobrado precisava ser totalmente reconstruído. Assim como no primeiro nível, os ambientes eram muito amplos. Joel pretendia dividir a área e criar uns quatro quartos, além de dois banheiros e uma sala de jogos. O piso parecia tão seguro quanto o do andar de baixo e ass paredes de madeira estavam ligeiramente inclinadas para dentro do casarão. O teto também suscitava receios: o forro não duraria muito, pois algumas tábuas já estavam soltas.
–Como disse anteriormente, aqui em cima vai ser tudo novo – afirmou Joel – Paredes de tijolos e lajes de concreto. Mobilize uma grande equipe, pois tudo precisa ser rápido.
Ele visitara Cinara apenas uma vez, quando a irmã recém se mudara. Não restara na construção muita coisa daquele tempo. Depois que ela e Orlando morreram, praticamente todos os móveis da casa foram vendidos em lojas de usados. Nenhum parente direto quis morar ali nos anos seguintes. Colocaram-na para vender, mas também não surgiram interessados. Embora a casa em si fosse boa, a localização não era das melhores. A decisão de ir morar na Rua Velha havia sido tomada de forma repentina. Procurara a sua mãe e dissera que a mudança para um local isolado era a melhor maneira de acabar com alguns problemas da sua família. Maria José Selbach então lhe dera a chave da antiga propriedade de Cinara dizendo-lhe ficar com ela. Todos os irmãos de Joel estranharam quando ele anunciou a sua mudança para Canoas. Ao contrário dele e da mãe, o resto da família parecia receosa em relação ao sobrado. Achavam estranhas as circunstâncias do suicídio dos antigos moradores e se mostravam inquietos com o fato do filho deles ter morrido no local. Mas Joel não se abatera: ele não era supersticioso, portanto, não acreditava que o sobrado em si tivesse exercido influência sobre as tragédias que ocorreram no passado.
Após observar toda a construção, Joel voltou ao carro e ligou o seu laptop. Abriu o documento que continha o projeto idealizado pelo arquiteto e mostrou para os homens responsáveis pela reforma.

2

O celular de Cristina Selbach tocou exatamente no momento em que dera a partida no Vectra que ganhara do marido no ano passado. Falando no diabo, era o número dele que estava chamando. Ela terminou de colocar o cinto de segurança e conectou o fone de ouvido ao telefone enquanto manobrava o veículo no estacionamento do shopping center.
–Oi amor – disse Cris.
–Oi linda – disse Joel do outro lado da linha. – Ainda vou demorar um pouco aqui em Canoas.
–Acertou tudo com o construtor?
–Acertei sim. Você está no trânsito?
–Estou, mas pode continuar falando. O trânsito está lento.
–Após conversar com os homens que vão botar a mão na passa, fiquei com a certeza de que a nossa casa ficará linda. Tudo isso é por você! Por você e pelas crianças. Quero que nós finalmente reencontremos a felicidade.
Cristina se abalou com aquela manifestação explícita de carinho. Tempos atrás, quando Joel dificilmente era terno, ela não daria importância para este momento sentimentaloide. Mas após o baque que eles sofreram, instantes de ternura causavam uma comoção indescritível.
–Sei disso – respondeu ela, com os lábios trêmulos.
–Bom, vou desligar. Eu te amo, Cris.
Cris fechou os olhos temporariamente, atordoada pelo sentimento de culpa.
–Eu também te amo, Joel – conseguiu responder. – Amo muito.
–Não tenho horário pra chegar em casa. Preciso providenciar algumas coisas antes de voltar para Porto Alegre. Até mais. Beijos.
–Beijo, tchauzinho.
Cristina tirou o fone do ouvido e acompanhou o fluxo de carros, pensativa. As pessoas que a viam consideravam-na uma pessoa cuja vida era cor de rosa. Era uma mulher linda e inteligente. Loira de olhos claros e dona de corpo e sorriso belíssimos. Foi eleita Miss Brasil na década de oitenta e seguiu a carreira de modelo até o nascimento do seu primeiro filho. Participou de algumas telenovelas que engordaram a sua conta bancária e a sua vaidade, porém, descobriu que não levava jeito para aquilo. Depois passou a escrever romances e livros de autoajuda. Era uma personalidade benquista por todas as pessoas, não somente pelos feitos profissionais como também pela simpatia nas aparições públicas. Apesar disso, Cristina, aos quarenta anos, vivia um dos piores momentos da sua vida. Sua mente estava repleta de medos e inseguranças. O problema iniciou no dia em que ela foi sequestrada por um fã maluco e permaneceu em um cárcere privado por algumas semanas. Após o resgate, a esposa da Joel descobriu que a sua vida jamais seria a mesma. Além de traumatizada, ela se tornou incapaz de escrever uma única palavra e seus projetos literários foram interrompidos.
Ironicamente o seu casamento ficou melhor após o sequestro. Joel, que até então se preocupava mais com os seus compromissos profissionais, tornou-se um marido presente e amoroso. Mas a mudança radical acabou despertando nela reações controversas. A óbvia satisfação se mesclava com uma dor na consciência insistente e consistente que poderia ser compreendida somente pela própria Cristina.
No geral, a vida dos Selbachs parecia perfeita, tanto para as pessoas de fora como para eles mesmos. Os desentendimentos eram raros e os pequenos percalços poderiam ser enquadrados como “problemas que acompanham todas as famílias”. Entretanto, Cristina percebia na família uma crise discreta e silenciosa que decorria da falta de sintonia entre todos eles. Ela tinha sérias dúvidas a respeito dela e de Joel serem realmente bons pais. Juliana, a filha mais velha, enfrenta problemas sentimentais graves e não consegue ver nas pessoas que a colocaram no mundo os dois grandes amigos que precisa. Pedro, aos dez anos, sofre de falta de autoconfiança: é inseguro e muito tímido. Recebe da família a certeza de que vai ser amado em qualquer circunstância, entretanto, não encontra nos pais o suporte que o fará mudar e evoluir. Adriana ainda é pequena demais para apresentar grandes problemas, todavia, Cristina também teme pelo seu futuro. As coisas superficialmente soam corretas, pois os problemas são maquiados e a vida segue em frente.
O fato da troca de endereço ocorrer principalmente por sua causa não a deixava chateada. Cristina estava feliz com essa possibilidade. Sair da agitação de Porto Alegre faria bem a todos eles. Talvez a mudança os tornasse novamente unidos e “sintonizados”. Ela precisava se apegar a este otimismo.

3

Pedro e Samuel disputavam uma partida de futebol virtual no videogame novinho em folha que Joel havia dado para o filho no seu último aniversário. Pedro jogava com o Barcelona enquanto Samuel controlava o Milan. Até aquele momento a vitória era de Samuel – três a um. Os dois se encontravam sozinhos no apartamento. Joel estava vendo a casa na qual iriam morar, Cris havia ido ao médico e Juliana fora com Adriana até o mercado.
Samuel, que fora apelidado pelos parentes de “Sam”, era primo-irmão de Pedro. Filho de Cinara Selbach, órfão desde os primeiros meses de vida, acabou sendo criado pela avó e gozou de uma infância razoavelmente tranquila. Aos doze anos, era um garoto autoconfiante e impetuoso que também tinha como característica a discrição que às vezes o fazia ser chamado de autista. Se o pusessem em um cemitério durante a madruga, ele provavelmente dormiria sobre um túmulo se tivesse com sono.
Curiosamente o inseguro Pedro era uma das únicas pessoas que conseguia arrancar de Sam grandes demonstrações de emoção. Porém, o filho de Cinara também ajudava o de Joel. Na companhia do primo, Pedro parecia contagiado pela sua confiança. O entrosamento dos dois vinha sendo tão benéfico que Joel teve a ideia de levar Sam para morar com eles em Canoas por algum tempo. Maria José aceitou a sugestão e os dois garotos explodiram de alegria com a notícia.
Após a partida de videogame, Pedro voltou para o menu inicial do jogo e escolheu a opção “reiniciar a partida”.
–O que você vai levar para casa nova? – perguntou para Sam.
–O tio disse que eu podia levar o que quisesse. Mas vou levar somente as minhas roupas e algumas revistas.
–Vai ser bem legal! – exclamou Pedro.
–Gosta muito da ideia?
–Sim. Você não gosta?
–Gosto – respondeu Sam sem muita animação.
–Parece que não gosta muito.
–Ah, eu não sei – argumentou Sam, indeciso.
–Não quer ir conosco?
–Não. Nada a ver... Eu quero ir sim. Gosto de vocês.
Sam olhou para Pedro com uma expressão confusa.
–É porque teus pais moraram lá? – perguntou Pedro.
Na sequência, ele infantilmente pôs a mão na boca, envergonhado, como se tivesse dito uma grande besteira.
–Não também – respondeu Sam, sem parecer afetado. – Eu nem lembro deles.
Pedro ficou aliviado, apesar da sua dúvida persistir. Resolveu desistir dela. A partida de futebol recomeçou. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos. Sam marcou mais um gol.
–Mas você é fraco hein – zombou Sam.
–Também vou apelar para gol de manha – respondeu Pedro.
–Pode apelar.
O filho de Joel contra-atacou, mas o seu centroavante chutou para fora.
–Pedro?
–Fala.
–Tem medo de fantasmas? – perguntou Sam com voz enigmática.
Pedro estremeceu por dentro. O seu primo adorava pegar no seu pé contando histórias assustadoras muito convincentes.
–Não – respondeu Pedro sem um pingo de confiança na própria voz.
–Tem sim.
–Não tenho!
–Claro que tem. Na casa da tia Juracy tem medo de entrar no galpão só por causa das histórias que os primos maiores contam.
–Cale-se!
–Tem medo até da Maria Degolada!
–Que tal se preocupar com o jogo?
Sam se calou. Dois minutos depois recomeçou:
–Se eu fosse você, ficaria preocupado – alertou.
–Por que? – quis saber Pedro.
–Vamos morar na casa onde o meu irmão morreu.
Pedro estranhou.
–Ué! Eu pensei que ele havia morrido no acidente.
–Morreram somente meu pai e minha mãe. Meu irmão José morreu na casa mesmo.
–E como ele morreu?
–Não sei. Isso ele não me contou.
–Quem não te contou?
–José.
Como se tivesse sido beijado no pescoço, Pedro viu sua pele arrepiar-se. Ele instantaneamente imaginou José Maria, seu primo que morrera aos quatorze anos, aparecendo ao lado da cama de Sam, meio cristalino, sussurrando algo em sua voz recheada de eco. Pedro afastou esta imagem da cabeça.
–José morreu – afirmou.
–Eu sei – respondeu Sam. – Mas ele ainda surge para mim. Às vezes parece que ele me visita em sonhos, mas esses sonhos são muito reais.
–Pare de falar isso – clamou Pedro.
–Só estou te avisando. Vamos dormir no mesmo quarto. Se algum dia ele vier me ver, você tem que estar preparado para receber ele também.
–Tá brincando comigo né?
–Não. Nem pense que é mentira, pois os espíritos gostam de aparecer justamente para aqueles que não acreditam.
–Você é um idiota, sabia?
–Deixa de ser cavalo! Eu sei por experiência própria. José precisou me dar muitos sustos até eu aceitar ele.
–Por que você sempre quer me assustar? – questionou Pedro, desesperado. – Tudo que você fala sempre é mentira.
–Desta vez não é. E não se esqueça que aquela casa ainda pertence a ele.
–Não deveria brincar com os mortos, sabia?
–Já disse que não estou brincando. Pedro, você vai ver só! Quando o José vier dar um belo susto em ti, eu não vou te ajudar...
–Não, olha só o que os dois crianções estão falando! – disse Juliana interrompendo a conversa dos dois.
Ela e Adriana entraram no quarto de Pedro. A caçula era a cara da irmã mais velha e ambas eram muito parecidas com a mãe. Igualmente donas de olhos claros, as duas se diferenciavam de Cris somente pela cor dos cabelos, que era castanho-escuro Adriana sentou ao lado de Sam, que sentiu as suas bochechas esquentarem. Não gostava de falar as suas histórias na frente de pessoas mais velhas. Isso fazia ele parecer um imbecil.
–Ninguém merece vocês dois – zombou Juliana. – Você é mesmo um medroso hein, Pedro! Só falta você desanimar o pai na hora da mudança. Cuidem para não assustar a Adri.
–Eu quero jogar videogame – disse Adriana com sua voz fina e delicada.
–Depois – avisou Pedro. – Bem depois.
Juliana saiu do quarto.
–Eu sabia que é mentira – disse Pedro, cantando vitória.
–E você acha que ela sabe dessas coisas? – indagou Sam. – você é ingênuo mesmo... Quando José aparecer, ele vai encontrar apenas nós dois.
Sam olhou para Pedro com escárnio. Apesar de ser adepto daquelas brincadeiras, ele era prudente e tentava não extrapolar. Ele costumava sentir algumas coisas de verdade. Somente brincava a respeito com Pedro, pois Pedro era o tipo de garoto que pedia este tipo de provocação. Era engraçado vê-lo amedrontado. Tão engraçado que Sam se dava ao direito de avançar um pouco o sinal.
Porém, o que parecia uma brincadeira perversa também era uma lição. Sam pretendia divertir-se e ao mesmo tempo tirar de Pedro uma boa parte dos seus temores. Independente de ele sentir ou não alguma coisa no casarão, idealizava algumas brincadeiras que apavorariam e posteriormente encorajariam o seu primo preferido. Este precisava enfrentar algumas coisas que o metessem medo de verdade.

4

Joel chegou em casa no final do dia 15 de abril sentindo um enorme cansaço. Havia se estressado demais com os problemas do sobrado. Correu atrás dos materiais pedidos pela equipe de Luiz Carlos e providenciou com a companhia de energia elétrica o fornecimento para o sobrado. Encontrou mais problemas e gastos do que imaginava, mas pelo menos esta correria valera alguma coisa. A reforma começaria no dia seguinte, e poderiam se mudar para o sobrado dentro de setenta dias, ou menos.
Após o jantar, Joel tomou um belo banho. Sentiu uma ligeira e deliciosa sensação de enfraquecimento quando o jato de água caiu no seu corpo exausto. Depois ficou parado debaixo da ducha, recapitulando as suas próximas providências..
Cristina o esperava na cama, vestindo uma camisola lilás. Ela já havia tomado o seu banho e agora lia uma revista. Joel saiu do banheiro gemendo enquanto caminhava. Suas juntas estavam desacostumadas com os exercícios praticados durante aquele dia. O seu trabalho não exigia esforço físico. Antigamente ele fazia academia, mas acabou desistindo. Como consequência, teve cinco quilos a mais registrados na balança e o protesto de suas pernas quando tinha que ficar bastante tempo em pé ou caminhando.
–Esgotado? – interessou-se Cris.
–Totalmente – respondeu Joel.
Ele tirou o roupão e vestiu uma cueca. Cris colocou a revista ao lado do abajur e se acomodou debaixo do lençol. O quarto estava na penumbra. Joel foi até o seu lado da cama e acertou o horário do despertador no rádio relógio. Depois se deitou.
–Estou moído – disse ele. – Mas pelo menos eu já acertei tudo. Agora a reforma está nas mãos do Senhor Luiz Carlos.
–Ficou tudo certinho mesmo?
–Oh, sim. Vou ir até Canoas umas duas vezes por semana para ver como estão as coisas, mas agora é tudo com eles. O Luiz é de confiança; já sabe como eu quero que fique.
–Até que foi rápido, não é mesmo?
–É. Por sorte guardamos um bom dinheiro para poder acelerar a obra.
Pode ter certeza que a construção é muito boa, e vai ficar mil vezes melhor. Além de confortável, a casa será muito segura. Vou instalar câmeras e pouquíssimas pessoas vão saber do nosso novo endereço.
Cris encostou a sua cabeça no ombro de Joel e o abraçou.
–Amor, eu estou muito feliz – disse.
–Que bom! - exclamou Joel. – Esta casa é um presente para você. Após o sequestro, a melhor solução é se afastar das pessoas e da imprensa.
Subitamente ela precisou repetir aquela frase que sempre repetia.
–O trauma do sequestro vai passar.
–Eu sei que vai, meu amor. Eu também fiquei assustado. Ir para um lugar deserto vai nos dar tranquilidade. Isso vale para nossos filhos também. Não estamos saindo somente por causa do teu abalo emocional. Nem pense nisso.
–Já conseguiu acertar o adiantamento das férias?
–Sim. No nosso primeiro mês na casa nova estarei de férias da TV. Precisarei apenas escrever para as outras publicações. Ficarei em função do computador e da Internet, mas só o fato de não precisar ir e voltar a Porto Alegre já ajuda.
–E fica bem pertinho de tudo, não é mesmo?
–Claro. Tem um baita supermercado perto da entrada da Tabaí. O shopping também não é longe. Bem como planejamos. Casa em um lugar afastado, mas perto da capital. Quase ninguém passa por ali.
–Isso é ótimo.
–Falta apenas arranjar a escola para as crianças. Têm duas instituições muito boas perto da estação de trem. Amanhã podemos entrar no site delas para saber um pouco mais. Já a Juliana eu posso levar na faculdade tranquilamente.
–Ótimo.
Cris esticou-se na cama e pegou o controle remoto que estava atirado no chão. Ligou no Jornal da Globo. Enquanto o apresentador chamava os gols da rodada da Copa do Brasil, Cris se pôs sentada na cama, pensativa.
–Naquela casa o filho da Cinara morreu – disse ela, intrigada.
–Isso não interfere em nada – respondeu Joel.
–Talvez. É bom que Pedro não saiba disso.
–Nunca falamos sobre isso na frente dele. Pedro pensa que a família da minha irmã morreu no acidente. Não sabe que Cinara e Orlando se mataram, e pensa que José estava com eles. Essa foi a versão que todos os jovens da família sabem, inclusive os nossos jovens.
–Falamos pouco sobre isso, mas Juliana sabe que José morreu ali. Sam deve saber com certeza. Ele pode contar para Pedro.
–Também não é nenhum bicho de sete cabeças, Cris. Pedro não é tão covarde assim. Basta administrarmos bem a cabecinha dele.
–Sei não. Samuel é o oposto. Bem que ele pode querer pregar uma peça em Pedro, assustando-o.
–Teremos que administrar, meu bem – insistiu Joel, despreocupado.
Cris deitou novamente, encostando a cabeça lentamente no travesseiro. Ele notou que a esposa estava apreensiva.
–Algo mais? – perguntou Joel com voz doce.
–Não.
Ele tocou o rosto de Cris, girando-o até que pudesse encará-lo.
–Me fala – pediu Joel.
–Ai, agora eu me peguei pensando na morte de José e dos seus pais.
–Cris, você nunca foi ligada a este tipo de superstição – disse em um tom de voz um tanto acusador.
–Eu só estou pensando na possibilidade de Pedro saber detalhes da morte do primo morto. Eu conheço o Sam. Ele vai contar...
–Tem medo de se impressionar também?
–Um jovem morreu ali. O ar da casa deve estar carregado.
Joel ficou surpreso.
–Cris, eu fiquei com a casa porque sabia que você não se importava com este tipo de coisa. Não vai me dizer que está impressionada.
Cristina ficou sem palavras.
–Não...quer dizer...me desculpe Joel! É apenas reflexo do que aconteceu comigo.
–A casa não tem nada demais. Minha mãe já passou a noite lá e nunca sentiu nada.
–Alguns irmãos teus dizem que a casa é estranha. Que foi a casa que fez com que Cinara e o marido se matassem.
–Eles não passam de um bando de religiosos fanáticos e supersticiosos. Isso que eles são! Orlando se jogou na frente daquele caminhão, com o consentimento de Cinara, por causa da dor que eles sentiram. Não tem nada a ver com a casa. Amor, se você quiser, dou um jeito de voltar atrás.
–Não precisa, Joel. Desculpe-me. Só pensei nisso agora por causa de Pedro. A casa será reformada. Ficará linda, moderna e perfeita para a gente. Estou louca para ver ela pronta.
–Tem certeza?
–Claro! Quero ela pronta.
–Dentro de pouco tempo, meu amor.
Joel deu um beijo na esposa e sentiu que a apreensão dela havia sumido. Ele se acomodou debaixo dos lençóis. Usou sua mão para encontrar a pele macia de Cristina.
–Te amo, Cris – sussurrou ele.
–Também te amo – suspirou ela.
–Perfeita! Te amo, te amo...
Os dois se entregaram ao ardor do ato sexual. O seu sabor não foi tão doce quanto o daqueles que aconteceram antes do sequestro. Alguma coisa havia mudado em Cris, e Joel faria de tudo para descobrir o que era quando eles chegassem ao novo lar.

Convite para o segundo lançamento de "O Sobrado da Rua Velha"


Como adquirir O Sobrado da Rua Velha


O autor promoverá um segundo lançamento com sessão de autógrafos:


8 de outubro de 2012 - a partir das 18h

Local: Qoppa Restaurante (Unilasalle)

Avenida Getulio Vargas, 5524 / Prédio 15 - 10º Andar 
Centro
Canoas - RS


O Sobrado da Rua pode ser adquirido diretamente com o autor através dos contatos:

email: jeremiasmello@hotmail.com
email: jeremias.soares@outlook.com

O custo do exemplar é R$ 29. Se você morador das cercanias de Porto Alegre e Canoas, pode combinar de retirar diretamente com o autor. Para pessoas de outras cidades, o envio poderá ser feito pelo correio, através de Registro Módico. O custo do envio é de R$ 6,00.

Agradecimentos


Ok, eu escrevi o livro.

Mas ele não seria possível se não fossem algumas pessoas que foram importantes tanto no processo de criação como na divulgação. Talvez tenha esquecido alguém, pois a memória pode falhar. Mas quero que todos se sintam abraçados. Se não fosse por vocês, O Sobrado da Rua Velha não estaria publicado hoje.

Esta é a lista que foram importantes no processo:

-Todas as pessoas que leram O Sobrado da Rua Velha enquanto ele era um simples rascunho (mencionei os nomes no Facebook);

-Todos os amigos do Hooligans, que sempre me apoiaram na tentativa de lançar um livro;

-Todos os amigos que divulgaram o livro para os parentes, amigos e conhecidos, além de redes sociais;

-A minha família, que me apoiou e me deu todo o suporte durante o processo;

-Colegas de serviço, pelo apoio;

-Professores de português, por tudo que me passaram (se eu cometo ainda alguns erros, é por culpa minha);

-Professores em geral, pela tolerância;

-A minha mãe, Lila, que correu comigo para buscar os livros e conseguir bebidas para o lançamento;

-Murilo Máximo, que me ajudou a fazer o teaser 01 e a sua iluminação;

-Fábio Malheiros, que me ajudou a conseguir as trilhas sonoras dos teasers;

-Régis Bueno, que me incentivou a fazer um lançamento não tão modesto;

-Edson Pacheco, que deu uma baita contribuição para eu divulgar o livro na Internet;

-Ilca Eliane Santana Borges, a revisora do livro;

-Rodolfo Sperling, que emprestou parte do seu corpo no Teaser 03;

-Juliana Gonçalves, que interpretou Cinara Selbach no Teaser 02, que me ajudou com os efeitos especiais do Teaser 04, que propiciou a minha ida ao Diário de Canoas, que vai me ajudar nos lançamentos como caixa, que providenciou os banners e os salgadinhos, e outras divulgações, que me dá o seu apoio diário e que me ama;

-Sandra Denardin, que escreveu o release do livro e me ajudou nas divulgações;

-Clarissa Colares, que me recebeu no Diário de Canoas e escreveu a reportagem divulgada no dia do lançamento;

-Eneida da Silva, da Casa de Cultura Mario Quintana, que me ajudou com o primeiro lançamento;

-Lizi Ricco, que me ajuda a cuidar do segundo lançamento;

-Jana Lauxen e Alexandre Durigon, da Editora Multifoco, pelo acompanhamento e pelos valiosos conselhos;

-Todos que eu não mencionei aqui e que ficaram felizes com o livro.

Muito obrigado!
Um grande abraço!

Jeremias Soares

"O Sobrado da Rua Velha" no Coletiva.net



http://www.coletiva.net/site/noticia_detalhe.php?idNoticia=47075

"O Sobrado da Rua Velha" é notícia no site da Secretaria de Cultura do RS


Quero contar uma história...


Venho até aqui para contar uma história para vocês.

É a história de uma casa antiga que foi reformada e modernizada. Ela fica na Rua Velha, uma estrada esquecida da cidade de Canoas. Não seria nenhum exagero afirmar que este lugar pertence a uma espécie de universo particular. O que existe e o que acontece ali não é do conhecimento das demais pessoas.

Esta igualmente é a história de um sujeito bem intencionado que deseja resolver os problemas de sua família trocando o endereço. O seu nome é Joel Selbach e sua profissão é jornalista. E existe também a esposa deste sujeito bem intencionado. Cristina Selbach é uma celebridade querida por toda a sociedade. Ela sofreu um grande trauma e precisa conviver também com o receio de guardar, nos recônditos do seu coração, um detalhe terrível da origem dos seus problemas.

Temos então o encontro da casa antiga com a família encabeçada pelo sujeito bem intencionado e pela celebridade traumatizada. E é aí que começa o problema.

Convido vocês a ocupar um dos quartos de hóspedes de O Sobrado da Rua Velha e acompanhar o resultado desta reunião. Mas preciso dar alertas importantes. Alguns objetos na casa poderão se mover sozinhos. Vocês haverão de se sentir vigiados ao se verem sozinhos em alguns ambientes e é terminantemente desaconselhável tentar se comunicar com espíritos nas dependências da propriedade. Ciente destas coisas, talvez vocês não corram riscos.

Acompanhar o que acontece com a família Selbach na Rua Velha é como adentrar um buraco debaixo da terra. A cada metro avançado se descobre um escuro cada vez mais intenso. Existe o sobrenatural, mas existe também a demência e o horror que somente o homem é capaz de conceber. E a mistura das forças invisíveis com as imperfeições humanas acaba gerando consequências ainda mais desastrosas.  

O Sobrado da Rua Velha chega no dia 27 de setembro de 2012. Sugiro a todos acompanharem comigo o conteúdo das suas páginas. E peço também a divulgação aos amigos e conhecidos. Um compartilhamento nas redes sociais que não leva nem cinco segundos já está de bom tamanho.

Um grande abraço a todos, e uma ótima estadia no Sobrado

Jeremias Soares

Perfil de Cristina Selbach


Perfil de Cristina Selbach, publicado no Diário Rio-Grandense em 2004, quando ela completou quarenta anos.



Cristina da Rosa Selbach (Pelotas, 9 de janeiro de 1964) é uma ex-modelo, atriz e escritora brasileira. Tornou-se conhecida nacionalmente ao vencer o concurso de Miss Brasil em 1982*, aos dezoito anos de idade.

Vida

Natural de Pelotas, Cristina é a caçula de uma família de descendentes portugueses que conta com três filhas mulheres.

Estudante da Escola Padre Anchieta, destacava-se pelas excelentes redações que escrevia. No entanto, era provocada pelos colegas de classe, que a chamavam de Olívia Palito devido à sua magreza.

Abandonou Pelotas em 1980, ao ser descoberta por um olheiro de uma agência de modelos.

Conheceu o seu marido, o jornalista Joel Selbach, durante o concurso de Miss Brasil. Casou-se em 1983, quinze meses após o início do namoro.

Em 1986, aos vinte e dois anos, leu à luz a sua primogênita, Juliana.  Concebeu Pedro, o filho do meio, em 1994. Adriana, a caçula, veio ao mundo cinco anos depois.

Dividiu-se entre Rio de Janeiro e Porto Alegre até 1997, quando decidiu ficar em definitivo na capital do Rio Grande do Sul.

Sequestro

Cris Selbach teve a sua vida abalada por um grande susto. Durante o inverno de 2003, foi raptada por um grupo de homens em Porto Alegre, enquanto corria pela orla do Rio Guaíba.

Os sequestradores, liderados por Miguel Molina, levaram Cristina para uma casa localizada em um bairro remoto da cidade de Gravataí (RS). As motivações do crime jamais foram esclarecidas, no entanto, a ex-modelo permaneceu no cativeiro durante três semanas. No ato do seu resgate, o líder do sequestro acabou morto pela polícia.

De volta ao convívio com a família, Cristina se declarou traumatizada e desde então evita aparições públicas.

Carreira

Honrando o título de celebridade polivalente, Cris Selbach iniciou a sua carreira como modelo ainda na adolescência, tornando-se famosa ao conquistar o título de Miss Brasil em 1982*. Na época, ela foi a quarta representante do Rio Grande do Sul a vencer o concurso.

Dona de uma beleza inigualável e de um carisma apaixonante, ganhou a oportunidade de participar da novela Duelo dos Sexos em 1983, onde estreou como atriz.

A carreira de modelo foi freada após o nascimento da sua primeira filha, no entanto, ela seguiu assinando contratos publicitários nos anos seguintes.

Em 1997, decidiu fixar residência em Porto Alegre por causa do marido e dos filhos, abdicando também da carreira de atriz.

“Jamais me achei uma boa atriz, tanto que não cheguei a ser protagonista de nenhuma novela”, dissera Cris aos jornais na época. “Quero sossegar com a minha família e ter mais um filho. Quanto à carreira, pretendo dar um novo rumo a ela”.

Anunciou sua terceira gravidez em 1998, aos trinta e quatro anos. Ainda durante a gestação, lançou o seu primeiro livro: As Desventuras de Isolda. No lançamento, Cris afirmou que pretendia escrever romances e livros de autoajuda.

A sua quinta publicação, que seria lançada em 2004, foi cancelada após o sequestro. A autora avisou que pretendia pausar a carreira de escritora por alguns anos. 

Trabalhos na TV

Novelas

1983 – Duelo dos Sexos
1986 – Círculo de Fogo
1988 – Vale nada
1990 – Madame da Sucata
1992 – Rocha sobre Rocha
1994 – Fuga da paixão
1996 – O Juízo FInal

Livros publicados

1998 – As Desventuras de Isolda
1999 – O Porão da Casa Nova
2001 – Em Busca dos Sonhos
2002 – O Manual da Mulher do Século XXI


*Esta referência, assim como as outras, é fictícia. No entanto, me senti na obrigação de abrir este parêntese, afinal, a Miss Brasil de 1982 foi a Celice Pinto Marques. A quarta representante gaúcha a vencer o concurso foi  Deise Nunes de Souza. E a foto pertence à Miss Universo de 1989, Angela Visser.

A assustadora história dos quadros das crianças que choram


Há aproximadamente vinte e cinco anos, minha mãe levou um dos maiores sustos da sua vida.
           
Enquanto limpava a nossa casa, uma humilde construção de madeira localizada na cidade de Canoas, precisou ficar com o corpo todo no chão para passar o aspirador debaixo de uma cômoda.  Eis que, durante a manobra, ela ficou de cabeça para baixo por alguns segundos. E, nesta posição, ela enxergou a verdade por detrás do quadro que adornava a nossa parede.
           
Era a imagem de uma linda criança loura que tinha lágrimas nos olhos e um semblante tristonho. O exemplar despertou na minha mãe um terrível desconforto. Após se erguer do chão, ela retirou o quadro da parede, atravessou a rua e o arremessou no lixo. Não recorda exatamente aquilo que viu, entretanto, relembra a visão como algo medonho. A verdade era que a pintura, ao ser vista de ponta cabeça, trazia uma perspectiva aterrorizante.
           
Intrigado com a história, descobri que esta réplica provavelmente pertencia a uma coleção de quadros que foi muito popular nas décadas de 70 e 80, assinada por Bruno Amadio, vulgo Giovanni Bragolin.  


           
Pintor de formação acadêmica, Bruno Amadio se tornou popular ao criar os Crying Boys – quadros das crianças que choram. No total, a coleção contou com vinte e sete obras diferentes. Há quem diga que o a inspiração do pintor surgiu nas suas andanças durante a Segunda Guerra Mundial. Soldado do exército italiano, Amadio teria se baseado no sofrimento de crianças nas cidades e aldeias que percorreu. O peso emocional do trabalho tornou as pinturas muito populares. O fato é que as imagens despertam as mais diversas emoções. E elas fizeram sucesso no mundo inteiro, inclusive no Brasil.
           
E é nesta altura que entra a lenda urbana em torno do nome de Bruno Amadio. Dizem as lendas que existe uma verdade apavorante por trás deste inquietante portfólio.



Após amargar um início de carreira medíocre, Amadio teria feito um pacto com o Diabo para ver o seu trabalho deslanchar. Passou a usar o pseudônimo de Giovanni Bragolin e abandonou a temática de crianças felizes. Começou a pintar os quadros dos Crying Boys, que supostamente seriam amaldiçoados, inspirados pelo Demônio. Os modelos seriam crianças de um orfanato que teria sido posteriormente incendiado. Milhares de pessoas na Europa procuraram os jornais para relatar tragédias que ocorreram após a aquisição das tais pinturas. A situação beirou a histeria coletiva e parou nas páginas do The Sun, famoso jornal sensacionalista da Inglaterra.



Supostamente arrependido, Amadio, que morreu em 81, teria clamado que os possuidores dos quadros os queimassem. Ainda que não existam registros no Youtube, é famosa a história de que o pintor teria feito este apelo no Fantástico, da TV Globo. No final das contas, os acontecimentos em torno de Amadio (tanto os reais quanto os supersticiosos) não passam de boatos.

Outro boato tenebroso: os quadros originais e as 666 primeiras réplicas não pegam fogo sob hipótese nenhuma.

Além de trazer crianças tristes, as imagens reúnem detalhes que muitas pessoas reconhecem como mensagens subliminares. Tais minúcias são facilmente identificáveis quando observadas através de outras perspectivas.

Até hoje a história dos quadros de Bragolin assusta e impressiona as pessoas.





Capa de "O Sobrado da Rua Velha"


Incursão na cozinha - leia mais um trecho de O Sobrado da Rua Velha


Cris vestiu o roupão e saiu do quarto, encarando o resto do sobrado sob a penumbra. Antes de ir para a escada, olhou para toda a extensão do corredor. Esta era uma das partes de casa que mais lhe deixavam incomodada. Ali não era escuro, mas continha um aspecto sombrio. Principalmente quando ela se pegava pensando em José, que provavelmente passara por ali momentos antes de morrer. Se os espíritos realmente permanecem nas casas onde seus corpos morrem, era bem possível que o irmãozinho de Samuel pudesse estar no fim daquele corredor, olhando toda vez que alguém passava por ele durante a noite. Talvez nunca chegasse a comprovar isso, mas só de imaginar a presença a sua pele já ficava toda arrepiada.

Ela desceu pela escada com calma. Admirou os retratos colocados ali, obscurecidos pela falta de luminosidade, enquanto descia. Ao chegar no andar de baixo, acendeu as luzes. Instantaneamente ouviu o som da porta do armário na cozinha se fechando.

–Juliana, você está aí? – sussurrou.

Pergunta imbecil. Juliana era tão medrosa quanto a mãe para esse tipo de coisa. Nunca desceria sem acender as luzes.

Você não ouviu nada, disse a sua mente.

Foi até a cozinha em passos cautelosos. Acendeu a luz e viu tudo em ordem, exceto a mancha de gordura sobre a pia que teria que limpar na manhã seguinte. Resumindo, inércia total. No entanto, ela havia realmente ouvido o barulho. Não havia? Quem sabe.

Abriu a geladeira e pegou a jarrinha com água. Procurou também por um copo. A ausência de ruídos na casa nova, principalmente à noite, era completa. Para alguém que vinha de um lugar onde sempre havia algum som para escutar, aquela carência soava inquietante.

Cris subiu novamente até o segundo andar do sobrado, mas estancou no último degrau da escada ao ouvir um novo ruído vindo da cozinha. Agora era o som de talheres caindo no chão. Seu coração gelou dentro do peito. Sentindo as suas mãos tremerem, ela pôs a jarra com água e o copo sobre a parte plana do corrimão. Não teve tempo para pensar. Subiu da cozinha também o estouro de panelas se chocando dentro do armário. E o mais aterrorizante de tudo aquilo era ter a certeza de que não existia uma alma viva na cozinha. Pela primeira vez na vida, Cris estava tendo contato com uma manifestação paranormal.

Todas as forças que adquirira no banho se esgotaram. Pensou em chamar o marido, mas desistiu. Em um impulso insano, desceu correndo pela escada. A cozinha agora parecia a bateria de uma banda de rock. As portas dos armários se abriam e se fechavam. Pratos se estilhaçavam no chão e talheres eram despejados feitos água de cachoeira. Não viu isso, mas os sons eram tão claros que dava para o ouvinte desenhar as imagens mentalmente. Cris voltou para o primeiro andar, sentindo o som ainda mais alto e ameaçador. Temeu o que poderia acabar encontrando, todavia, resolveu conferir de qualquer jeito.

Quando a luz da cozinha foi novamente acesa, os sons cessaram automaticamente. Cris se deparou com o ambiente praticamente intacto. O máximo que viu foi a porta de um dos armários oscilando. Ela não conseguiu acreditar no que estava acontecendo. Olhou para os lados em busca de alguma coisa que provasse que aquilo não fora uma alucinação. Logicamente não encontrou nada.

Deus, isso é um castigo?